Era uma vez, uma sociedade que fez uma invenção capaz de mudar os rumos da história: a desigualdade. De um lado, os ricos, muito ricos; do outro, os empobrecidos, identificados como “pobres”, para não ficar incomodamente sugerido que alguém, através de algum sistema, teria provocado a situação.
A desigualdade não demorou a produzir sua consequência mais danosa: a criminalidade, essa reação que nós, do lado de cá, julgamos “muito feia, praticada por pessoas deselegantes e de mau-gosto”, que precisa de uma boa reprimenda para não ficarem incomodando os outros.
Então nós, personagens principais dessa história, com medo de que alguém nos “roube” a cena, inventamos a polícia, a quem atribuímos a tarefa de nos proteger dessas pessoas que, além do status de pobres, se sentem no direito de reagir ao fato de viverem numa situação que jamais escolheriam. Ao pagar nossos muitos impostos, colocamos à disposição do poder que nos representa, um conjunto de armas poderosas para esse fim.
De vez em quando, esse poder se enfurece por conta da rebeldia praticada por essa gente sem perspectiva, e invade morros, com a cobertura da grande imprensa, pronta para colocar ordem nessa parcela rebelde da sociedade que, além de tudo, nunca leu um texto de Shakespeare e confunde Bach com “bar”.
Do lado de cá, assistimos a tudo, com certo gosto de vitória e alívio, ao ver que a nossa sociedade está finalmente sendo purificada, na esperança de que “o pessoal dos Direitos Humanos” não atrapalhe esse serviço tão bonito que o poder está fazendo para nos proteger dessa gente ingrata, atacando as consequências para não ter de olhar e reconhecer as causas.
Oi Rubens, é espantoso como a gente se sente ao ver o retrato das coisas que nos afligem assim escancaradas num texto de uma maneira sutil sem ser anônima. Crua sem ser agressiva.
É muito duro perceber o quanto a ausência de Deus no coração dos homens causa danos. Ausência de religião quando se trata de sentimentos bons, humanos , caridosos. Pessoas que não só nunca leram Shakespear, como nem ler sabem.
Você realmente escolheu a profissão certa. É uma pena que se mantenha ainda num certo anonimato. Merece muito mais.
Abraço.
Anamaria.
Obrigado, Anamaria, por complementar meu comentário. Agora ele ficou ainda melhor.
Rubens
Oi Rubens, muito oportuno seu comentário.
A gente nem consegue sentir culpa pelo alívio que dá quando uma situação dessas acontece não é mesmo? Eu pelo menos não sinto.
Que Deus possa perdoar, mas a violência é tanta em toda parte de tudo quanto é jeito que a única linguagem que “eles” entendem é essa mesma.
O que nos resta então é procurar proteção.
Ana Julia