Arquivo do mês: novembro 2010

“Gente feia!”

Era uma vez, uma sociedade que fez uma invenção capaz de mudar os rumos da história: a desigualdade. De um lado, os ricos, muito ricos; do outro, os empobrecidos, identificados como “pobres”, para não ficar incomodamente sugerido que alguém, através de algum sistema, teria provocado a situação.

A desigualdade não demorou a produzir sua consequência mais danosa: a criminalidade, essa reação que nós, do lado de cá, julgamos “muito feia, praticada por pessoas deselegantes e de mau-gosto”, que precisa de uma boa reprimenda para não ficarem incomodando os outros.

Então nós, personagens principais dessa história, com medo de que alguém nos “roube” a cena, inventamos a polícia, a quem atribuímos a tarefa de nos proteger dessas pessoas que, além do status de pobres, se sentem no direito de reagir ao fato de viverem numa situação que jamais escolheriam. Ao pagar nossos muitos impostos, colocamos à disposição do poder que nos representa, um conjunto de armas poderosas para esse fim.

De vez em quando, esse poder se enfurece por conta da rebeldia praticada por essa gente sem perspectiva, e invade morros, com a cobertura da grande imprensa, pronta para colocar ordem nessa parcela rebelde da sociedade que, além de tudo, nunca leu um texto de Shakespeare e confunde Bach com “bar”.

Do lado de cá, assistimos a tudo, com certo gosto de vitória e alívio, ao ver que a nossa sociedade está finalmente sendo purificada, na esperança de que “o pessoal dos Direitos Humanos” não atrapalhe esse serviço tão bonito que o poder está fazendo para nos proteger dessa gente ingrata, atacando as consequências para não ter de olhar e reconhecer as causas.